Sábado, 29 de Novembro de 2008
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Não fiz coro com os que riram ou zombaram quando se soube que Jerónimo de Sousa era o sucessor do cinzentão Carvalhas. Tive mesmo ocasião de escrever que ele podia ser uma hipótese de salvação do PCP. Bem sei que Jerónimo é um dos duros, ortodoxo, estalinista íntimo. Mas consegue ter um estilo de proximidade, simplicidade, autenticidade e simpatia como nem Cunhal tinha, com o "povo comunista". Nenhuma expectativa de mudança do PCP, portanto. Lá estão as ditaduras de Cuba e da Coreia, o apoio ao terrorismo das FARC, para nos prestar o serviço enorme de nos lembrar quem é o PCP. Mas também, no dia em que o PCP mudar, paradoxalmente, morre. Jerónimo, que não é burro sabe-o muito bem e encarregou-se, com método e indiscutível estilo, de não deixar dúvidas a ninguém que com ele o PCP era o mesmo de sempre, até nas expulsões e nas limpezas internas, como se está a ver. Anda muita gente surpreendida, por exemplo, com o apagamento interno dos deputados do PCP, designadamente com a saída de Honório Novo do Comité Central, o verdadeiro santuário do partido. Ora, o PCP nunca gostou dos seus deputados. Pude testemunhá-lo enquanto convivi com deputados comunistas durante quatro anos. Acha-os secretamente convertidos às delícias da burguesia, embora eles almocem cuidadosamente no refeitório do pessoal e não no restaurante do Parlamento. Agora, voltando à salvação: a actual força eleitoral do PCP (e do impagável Bloco) é um sintoma de que somos uma democracia atrasada, que ainda fornece fermento a fenómenos partidários que já deviam, há muito, ter perdido essa força. E, no sapatinho, saiu-lhes ainda por cima o desajeitado (com a esquerda) Sócrates. O PCP, por estes dias, exulta. Muito mau sinal para o país.

(publicado no Tomar Partido)

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1 comentário:
De Joao Martins a 29 de Novembro de 2008 às 20:20
Portugal é atrasado porque tem uma imprensa medíocre (eu sei porque vivi noutros países europeus onde se podem ler jornais mais plurais e educativos) e porque há pouca cultura de honestidade, o que também se reflecte nalguns políticos. No entanto pode dizer-se que Portugal tem um partido comunista forte, à frente dos congéneres europeus, perfeitamente inserido na vida democrática e com um contributo indelével para a liberdade e para o desenvolvimento. Deve talvez o autor rejubilar com sistemas bipartidários, especialmente assentes em jogadas de bastidores, com líderes de opinião e assessores de imagem, muitos assessores de imagem. Democracia e liberdade de expressão são palavras bonitas mas muitas vezes prostituídas, que passam de boca em boca sem cuidado, mais para silenciar do que para exercer.


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