12.09.09por Paulo Ferreira
Comporto-me como blogger como o faço no dia-a-dia, digo o que penso sem pensar em consequências, há muito que aceitei que neste país ou se usufrui da liberdade ou se é ambicioso, combinar as duas coisas é difícil. Muitos portugueses dão-se mal com a liberdade e quem “fala demais” é marcado como se uma vaca se tratasse.
Ao longo destes anos já recebi centenas de mails ofensivos, já li milhares de comentários que apenas visaram ofender-me a mim ou a terceiros, já fui alvo de uma tentativa de silenciamento, o Ministério Público já tentou identificar o autor deste blogue, a IGF já leu milhares de mails do fisco em busca de fantasmas. E não chamei “filho da puta” a nenhum primeiro-ministro.Até agora recebi um único mail ameaçador, de uma figura próxima do círculo de Manuela Ferreira Leite, mas esse assunto resolverei um dia destes com dois tabefes nessa figura.
Já critiquei violentamente muitos ministros, já coloquei dezenas de adjectivos ao ministro das Finanças, já fiz montagens em Photoshop de fotografias de José Sócrates que até estão a ser usados em Powerpoints postos a circular por gente do PSD. Todavia, nunca recebi qualquer sugestão para ser mais macio, nunca fui pressionado profissionalmente, isso apesar de muitos directores-gerais saberem que sou o autor do blogue, nunca isso sucedeu e O Jumento já conheceu três governos.
Depois de ter sido notícia porque o Ministério Público tentou identificar o autor do blogue pedindo ajuda à Interpol houve quem me questionasse como poderia votar no PS nestas eleições. Sucede que o Ministério Público não actua a mando do governo e o processo foi aberto com uma queixa de dois altos responsáveis da DGCI, ambos nomeados para os cargos por Manuela Ferreira Leite, o director-geral dos Impostos, agora administrador do BCP, e o director de finanças de Lisboa, um ex-chefe de gabinete de Dias Loureiro.
Protestei contra o acesso da IGF a milhares de mails de funcionários do fisco, uma busca que nunca foi bem explicada e que terá sido autorizada pelo ministro. Só que essa autorização referia-se ao plano de actividades da IGF que não referia a metodologia escabrosa e abusiva que ia utilizar. Sucede que o inspector-geral de Finanças foi nomeado pelo PSD e um ex-chefe de gabinete de Durão Barroso.
Não conheço ninguém do PSD que tenha sido incomodado, muitos dos boys do PSD foram reconduzidos em altos cargos (director de finanças de Lisboa, Inspector-geral de finanças, etc.) ou mesmo promovidos, conheço muitos militantes (alguns com um passado de participação em saneamentos políticos) do PSD que foram promovidos a altos cargos por este governo.
Quando fala em asfixia democrática a líder do PSD não se pode limitar a evasivas, deve dar exemplos concretos para além do caso de Manuela Moura Guedes, que há muito tempo que deveria ter levado um pontapé no traseiro.
Eu até poderia ignorar os intervenientes e juntar a minha à sua voz, mas mesmo que tivesse razões de queixa nunca me juntaria com o professor Charrua, exercer a liberdade de expressão é uma coisa, ser bandalho é outra. Quando senti a minha liberdade em causa tomei posição, denunciei, critiquei, exerci o meu direito à liberdade. Não me recordo de algum político se ter manifestado contra a tentativa de perseguir um blogger sem ter qualquer crime para justificar o pedido de intervenção da Interpol. Não me recordo de nenhuma voz do PSD se ter indignado por a IGF ter tido acesso a todos os mails de milhares de funcionários do fisco. Porquê? Porque o trabalho sujo destes exemplos de asfixia democrática foi protagonizado por boys do PSD!
É por isso que perante esta lenga, lenga de Manuela Ferreira Leite fico na dúvida se devo responder-lhe à Almirante Pinheiro de Azevedo ou à professor Charrua. Não o faço porque os meus valores são outros. - O Jumento
26.02.09por Paulo Ferreira
Imaginemos que uma empresa deixa de ser avaliada em função dos seus resultados, que apenas 5% dos seus trabalhadores poderão ser premidos e que a sua avaliação é independente dos resultados da empresa. Não é difícil de adivinhar que essa empresa não sobreviverá muitos anos, terá o destino de muitas empresas da ex-URSS, trabalhadores e gestores começarão a trabalhar em função dos parâmetros da avaliação e não dos resultados, o seu destino a falência.
Todos os fundamentalistas são idiotas (como é o caso do tal secretário de estado que ameaçou atropelar os que se metessem no seu caminho) e os que pretendem avaliar só por avaliar, convencidos de que isso substitui a competência dos gestores são idiotas. Qualquer modelo de avaliação que despreze e não tenha em consideração os resultados das organizações é uma aberração, inicialmente terá os resultados conseguidos pela imposição do medo, mas a médio prazo estará votado ao fracasso, mas nessa altura os idiotas estarão longe, como já está o secretário de Estado que implementou a actual reforma da Administração Pública.
Ao fim de quatro anos de governo e de reforma da Administração Pública quantos dirigentes foram avaliados? Quantos foram demitidos por incompetência? Nenhum, são todos execepcionais, no país onde só 5% dos trabalhadores são bons temos sorte porque todos os dirigentes são competentíssimos, basta teremn frequentado um curso da treta ministrado pelo INA.
15.02.09por Paulo Ferreira
A notícia de que os nomes de algumas chefias do SIS estiveram acessíveis a todos os funcionários da Presidência do Conselho de Ministros tem contornos curiosos. Em primeiro lugar porque é muito estranho que um ofício em papel seja digitalizado e disponibilizado para todos os funcionários, é muito pouco provável que uma aplicação de gestão de documentos tenha tal output. Em segundo lugar porque a comunicação social preocupa-se muito com os documentos dos serviços de segurança e não se preocupa com a segurança da Presidência do Conselho de Ministros como se fosse uma mera repartição pública.
A verdade é que este caso revela que há funcionários que por simpatia partidária fizeram sair um documento da Presidência do Conselho de Ministros fazendo-o chegar aos jornais, sinal de que a luta política já não tem fronteiras. É evidente que os jornais não chamam a atenção para este aspecto pois receiam que os seus informadores venham a ser identificados.
É um sinal de que Sócrates cometeu um erro ao ser magnânimo, permitindo que boys do PSD tenham permanecido em posições vitais da Administração Pública, nalguns sectores, como a DGCI, há mais boys do PSD em postos importantes do que no tempo do governo de Durão Barroso que procedeu a saneamentos em série.
Ao pé dos mil e oitocentos milhões do buraco fraudulento do BPN qualquer caso de corrupção é uma brincadeira de crianças, esta é a maior fraude realizada em Portugal e arredores e os seus protagonistas são, nem mais, nem menos do que altas figuras do PSD. à cabeça estão duas das personalidades mais fortes do tempo dos governos de Cavaco Silva, Oliveira e Costa e Dias Loureiro.
Oliveira e Costa, que ficou famosos por acusações de perseguição fiscal e de perdões fiscais duvidosos, foi em simultâneo o homem do fisco e da tesouraria do PSD, um exemplo de transparência dos governos de Cavaco Silva. Dias Loureiro ainda chegou a nomear alguns ministros no governo de Santana Lopes, um deles foi um outro homem do BPN e ex-dirigente da secreta que fez o famoso negócio do SIRESP.
Compreende-se o lançamento do caso Freeport e só um ingénuo não percebe os seus objectivos.
08.02.09por Paulo Ferreira
Entretanto, as suspeitas de que as fugas ao segredo de justiça tiveram um alcance que vai muito para além levou muita gente a recear que o caso esteja a ser investigado e o próprio Expresso veio assegurar, em editorial, que não esteve envolvido em qualquer manobra: «Por isso, além do material que publicámos, temos material que recusámos publicar, ou por não estar devidamente confirmado através do cruzamento de fontes, ou por não estar suficientemente documentado, ou, ainda, por nos parecer proveniente de pessoas cuja motivação poderia não ser o simples esclarecimento e informação, mas antes espalhar boatos ou meias-verdades. ». Isto é, a própria direcção do Expresso diz que houve pessoas que tentaram espalhar “boatos e meias-verdades” e cuja intenção poderia “não ser o simples esclarecimento e informação”. Nunca um jornal foi tão longe ao denunciar a existência de manobras duvidosas.- O Jumento
Não posso!
Estou-lhe a dizer!
Não acredito!
É verdade, estou-lhe a dizer!
31.01.09por Paulo Ferreira
07.01.09por Paulo Ferreira
01.12.08por Paulo Ferreira
A ler no Jumento , se bem que, plagiando um pouco Mark Twain, poder-se-ia dizer que as noticias da morte do cavaquismo podem ser algo exageradas...vamos ver!
29.11.08por Paulo Ferreira
25.11.08por Paulo Ferreira
«A pessoa de Alegre é incontornável, o que lhe acarreta imensas responsabilidades. Pede-se-lhe análise objectiva, não apenas comentário de conjuntura; solidez de argumentos, não apenas posicionamentos; alternativas, não apenas críticas; perspectiva estratégica, não apenas referência a esperanças de mudança; política de alianças para a governabilidade, não apenas simpatias de circunstância; postura construtiva, não apenas capital de queixa. Surpreende a ausência de qualquer posição estruturada sobre as políticas públicas de natureza social, levando a recear que prefira o imobilismo. Defende o controlo das contas públicas, mas não parece aceitar que ele só foi possível com ganhos de eficiência e esforço de sustentabilidade na saúde, na educação, na fiscalidade, na segurança social, na administração pública. Ao primeiro rugir das corporações ou dos interesses, Alegre coloca-se contra as reformas, sem entender a ligação inversa entre ambas. Ignora as escolhas que é necessário fazer todos os dias, entre manter tudo como estava, ineficaz, ineficiente, dispendioso, sem qualidade nem futuro, ou escolher o árduo caminho dos cortes na gordura, da reorientação do gasto, da prevalência do interesse público sobre o interesse de pessoas, grupos, profissões ou corporações. Alegre necessitaria do triplo do orçamento para governar. Assim todos seriam felizes, embora o país se projectasse na falência.» António Correia de Campos no [Diário Económico] via O Jumento
23.11.08por Paulo Ferreira
«A guerra aberta entre os professores e a ministra da Educação é um manancial de perplexidades e incómodos. Registo alguns dos que me tocam.
1. É normal a ministra da Educação receber o líder da Fenprof, Mário Nogueira, depois de este afirmar que sairia da reunião caso a ministra, nos primeiros cinco minutos de conversa, não dissesse o que ele queria ouvir? Uma ministra, que representa o Estado, deve negociar nestas condições?
2. É normal um Governo desencadear um processo de avaliação sem, pelo menos, acautelar que um número significativo de visados compreende e aceita o modelo proposto?
3. É normal as escolas decidirem e, efectivamente, suspenderem um processo ao qual estão obrigados por lei e pela dependência orgânica do Ministério da Educação?
4. É normal existirem professores que, dentro do espaço da escola, façam autênticos comícios junto dos alunos contra a ministra e o Governo? E é normal que esses e outros professores incentivem alunos a ir a manifestações de rua contra a ministra?
5. É normal que um processo de avaliação seja tão odiado que leve 120 mil professores para a rua? Ou tudo isto não passa de uma explosão dos professores que ainda tem em vista o Estatuto da Carreira Docente que os obriga a muito mais permanência nas escolas, a mais trabalho e a mais dedicação?
6. É normal o Ministério da Educação apresentar um modelo de avaliação tão complexo que, passados uns tempos, necessita (segundo afirma a própria ministra) de um ‘simplex’?
7. É normal os professores verem-se envolvidos numa clara e evidente disputa pela liderança da CGTP, pelo facto de o líder da Fenprof ser o nome que o PCP gostaria de ver à frente da central, para substituir o ‘moderado’ Carvalho da Silva?
8. É normal que o próprio conceito de avaliação tenha de ser discutido pela ministra como se de uma questão política se tratasse, e, ao invés disto, nunca se ver uma discussão séria sobre a qualidade do ensino o qual, de acordo com os indicadores internacionais, é lamentável?
9. É normal nunca termos visto uma classe tão mobilizada como os professores protestar contra a degradação do ensino ou qualquer outro aspecto directamente relacionado com a Educação, mas apenas com as suas próprias condições e retribuições?
10. É normal um Conselho de Ministros discutir como se devem avaliar professores?
Estas 10 perguntas simples têm, a meu ver, todas a mesma resposta: não, não é normal.»-Henrique Monteiro- [Expresso assinantes] - recolhido via Jumento
Aproveitando o bom trabalho e a generosidade d' O Jumento deixo um artigo de opinião de Miguel Sousa Tavares que é imprescindível ler.
NÃO SE GOVERNAM NEM SE DEIXAM GOVERNAR
22.11.08por Paulo Ferreira
22.11.08por Paulo Ferreira
Oliveira e Costa, arguido
Conheci Oliveira e Costa há vinte anos, era um jovem técnico ele era secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, acompanhei-o a uma reunião no ministério da Agricultura onde ia ser decidida a eliminação do que restava do período de transição da Agricultura, uma medida desastrosa adoptada por Cavaco Silva para inverter uma tendência para a alta dos preços dos produtos alimentares. Durante o percurso a conversa foi escassa, quase se limitou a fazer um comentário sobre o serviço onde eu trabalhava, "a DG** está uma merda não está?".
Nunca tive a mais pequena consideração por esta personagem, um dos anónimos falhados que chegaram ao poder pela mão de Cavaco Silva e de lá saíram como banqueiros ou empresários de sucesso. A sua constituição como arguido não me surpreende, o que me surpreende foi nunca o ter sido antes depois das perseguições e dos perdões fiscais.
O procurador-geral de então foi promovido por Cavaco Silva com um lugar no Tribunal de Justiça Europeu.
18.11.08por Paulo Ferreira
O actual modelo de ensino em Portugal está esgotado, incapaz de produzir os resultados que a mudança do mundo exige. Foi bem sucedido na resposta à massificação do ensino mas incapaz de produzir a qualidade exigida por um mundo mais competitivo. Não vale a pena dizer que a culpa é dos professores, das políticas, dos ministros, dos pais, a culpa é de um modelo aberrante que apenas serve os que vêm no ensino o último reduto, a última das reformas agrárias.
Em vez de discutirmos a qualidade do ensino falamos da avaliação dos professores, em vez de nos preocuparmos com os alunos esgotamos as energia a discutir o estatuto dos professores. Isso não sucede por acaso, o ensino tem sido gerido em função dos professores. As associações de pais servem para gerir os ATL, os alunos não são representados por ninguém e os professores são o único grupo de pressão.
Quando se questiona a solução para melhorar a qualidade do ensino os sindicatos dizem que passa por melhorar a situação dos professores, quando se questiona o modelo de gestão das escola os sindicatos defendem a gestão democrática das escolas pelos professores, quando falamos da abertura do ano escolar os sindicatos defendem turmas mais pequenas para empregar mais professores. Tudo passa pelos professores, porquê?
28.10.08por Paulo Ferreira
Eu achei toda esta "estória" em volta do Jumento demasiado rocambolesca, demasiadamente....demasiado!
Aposto que tudo não passa dum esquema promovido pelo/pelos autor/es do blog O Jumento com a conivência do actual Governo e o patrocínio do BCP para lançar este blog para ganhar o prémio do Blog de Ouro 2008!
Dado ser o meu blog favorito proponho já O Jumento para blog do ano.....e proponho também que os governantes governem, a máquina fiscal funcione, e as autoridades responsáveis investiguem algo mais importante do que semi-denúncias de supostas-campanhas baseadas em alegadas-fugas de pretensa informação privilegiada...só para variar um bocadinho!
18.10.08por Paulo Ferreira
24.09.08por Paulo Ferreira
13.09.08por Paulo Ferreira
Oferta d'O Jumento

Além do supra citado Jumento outra excelente razão para navegar na blogosfera é ler o Rui Albuquerque como por exemplo aqui, aqui e aqui....
11.09.08por Paulo Ferreira
Tendo em conta que este é o ultimo ano do Euromilhões em Portugal e que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa procura um novo jogo para o substituir, fica aqui uma excelente sugestão vinda duma excelente loja Gourmet, O Jumento.

06.08.08por Paulo Ferreira
Vila Real de Santo António, onde estou passando férias, é um bom exemplo de como se perdem eleições, um concelho onde os chamados partidos de esquerda eram maioritários é agora gerido pelo PSD que no passado era um partido minoritário. Como é que é possível que o PCP e o PS, que decidiam as eleições, permitiam esta situação?
O PCP chegou a dominar a autarquia e perdeu-a, como? Porque levou aqui ao extremo de que os eleitores votam no partido, o último presidente da autarquia eleito pelo PCP pouco mandava na câmara, o verdadeiro presidente era o controleiro, personagem local que nunca ousaria candidatar-se. O PCP candidatava uma cara simpática e o controleiro mandava, até ao dia em que propôs um pára-quedista e ajudou o PSD.
O PS também geriu a autarquia e da última vez voltou um a apresentar um candidato que, como por aqui se diz, estava mais perdido do que a barca do arroz. Dizem por cá que um favor a Maria José Rita levou o partido a recandidatá-lo contra a vontade do seu eleitorado. O resultado foi o que se viu, o PSD ganhou uma câmara que no passado estava riscada do seu mapa.
Vila Real é o exemplo do que não se deve fazer nas eleições autárquicas, mas a lição não deverá ser de grande utilidade, a mesquinhez do aparelho do PS continuará a oferecer autarquias ao PSD e o centralismo (supostamente) democrático do PCP há-de levar muitos eleitores a rejeitar o modelo político que este partido gosta de impor às populações.
retirado d'O Jumento
O problema não é exactamente a mesquinhez do aparelho, é mais uma visão obtusa e pouco capaz a outro nível, se calhar o comodismo e a falta de ambição justificam mais do que nunca a renovação...no PS tal como noutros partidos politicos.Penso eu...
29.07.08por Paulo Ferreira
No tempo em que Portugal tinha muito dinheiro
Nesse tempo o país nadava em divisas, não se sabia o que era o défice comercial, as contas públicas tinham sido postas na ordem e o Estado amealhava dinheiro. Esse tempo foi há muito, muito tempo.
Que saudades que temos todos da fartura e da transparência das contas públicas, quando os reembolsos do IVA e do IRS eram processados a tempo e horas, sem retenções abusivas para compor os défices orçamentais a apresentar a Bruxelas. Era um tempo em que João Cravinho nem se preocupava muito com a corrupção, António Borges, que migrou no sentido inverso ao de Cravinho, vivia tranquilamente em Londres, sem ter que se preocupar com o buraco nas trocas comerciais ou com o endividamento dos portugueses, que nem sabiam o que era o cartão Visa ou o crédito bancário, até tinham dificuldades em gastar o dinheiro.
Era um tempo em que Portugal tinha dinheiro para pagar submarinos a pronto, Ferreira Leite, a senhora que em boa hora foi escolhida para ministra das Finanças desse tempo, nem pestanejou ao assegurar que havia dinheiro em barda para que os nossos almirantes pudessem andar debaixo de água sem respirador nas orelhas. Manuela Ferreira Leite estava tranquila, os submarinos seriam pagos a pronto, não comprometeriam as contas de futuros governos e, portanto, nem era necessário pedir a opinião do partido que poderia suceder no governo. Aliás, nesse tempo as sondagens não eram fiáveis e portanto nada apontava para uma alternância, além disso o Processo Casa Pia garantia que a alternâcia não era coisa para breve.
A fartura era tanta que o governo juntou-se em Óbidos para anunciar uma chuva de investimentos na investigação, aliás, o dinheiro era tanto que ainda neste Verão caíram uns aguaceiros de euros em Lisboa.
Era mesmo um tempo de fartazana, um tempo em que o Aznar chegava de manhã e à tarde já Ferreira Leite tinha posto de lado o dinheiro necessário para construir um TGV em cada canto e outro a passar pelo meio, com destino a Badajoz, a terra dos míticos caramelos de que todos os portugueses gostam, com excepção dos que usam placa. E nem pestanejou, havia dinheiro com fartura, o TGV era um negócio fiável e como havia dinheiro em excesso até os candidatos à sucessão de Barroso poderiam estar descansados pois não teriam que suportar a fartura.
Era um tempo de fartura, mas foi hà tanto tempo que nem a própria Ferreira Leite se lembra e António Borges andava tão ocupado com as contas e os prémios da Goldman Sachs que nem deu por isso. Que saudades eu tenho desse tempo!
retirado na integra d'O Jumento
Curiosidade a ler
16.07.08por Paulo Ferreira
Quando assisto aos acontecimentos em Loures e vejo uma manifestação junto à Câmara Municipal de Loures interrogo-me sobre o dualismo com que a pobreza está a ser tratada em Portugal, dualismo que está presente cada vez mais no discurso político.
Lembrei-me de um caso que há alguns meses passou na nossa comunicação social, que dava conta da intenção da Segurança Social de tirar os filhos a uma mãe por não os ter condições para criar, trabalhadora agrícola não tinha emprego certo, por ser pobre não tinha casa em condições. Isto é, enquanto os “pobres” da cidade fazem uma manif para trocar de casa e beneficiam de rendimento mínimo, tanto maior quanto mais se multiplicar a prole, ali ao lado, para os lados de Santarém, o mesmo Estado recusa o direito de ser mãe a alguém que nada recebia do Estado. Há algo de errado em tudo isto.
Tal como em tudo o politicamente correcto diferencia os pobres em dois grupos, os que devem ser tratados com cuidado dos que podem ser esquecidos. Se formos às aldeias da zona serrana do Algarve (a que conheço) encontramos muitos milhares de portugueses que vivem no limiar da pobreza, trabalhando arduamente para obterem recursos mínimos para sobreviver. Como nunca optaram por construir uma barraca numa qualquer cidade e não pertencem a nenhum grupo étnico ou têm que fazer pela vida.
Mas não é preciso ir tão longe, basta ficar em Lisboa para assistirmos a alguns espectáculos preocupantes. Lembro de no tempo em que João Soares estava à frente da CM de Lisboa, quando estavam a ser distribuídas centenas de casas, o espectáculo preferido das televisões em vésperas de eleições autárquicas, era ouvir os protestos dos que recebiam as novas casas, protestavam por coisas como o facto de a casa ter apenas três quartos quando os filhos eram três e coisas do género. Aqui já nem chega a comparação com os outros pobres esquecidos pelo Estado, até a chamada classe média fica incomodada, quantas famílias da classe média, a que paga impostos para pagar isto tudo, consegue ter a casa que deseja ou mudar de casa sempre que está incomodada com a vizinhança, como, aliás sucede nas imediações dos novos bairros de reinserção social onde se perdeu a segurança e tranquilidade?
Parece que em Portugal há pobres de primeira e pobres de segunda classe, os de segunda classe são os que trabalharam toda a vida, pagaram impostos e segurança social e que vivem em casas degradadas ou suportam rendas caras e beneficiam de pensões miseráveis. Os pobres de primeira classe nunca descontaram, quando trabalham fazem-no no mercado paralelo e sentem-se no direito de serem mantidos pelo Estado.
Já alguém viu o presidente da CM de Loures mais o Governo Civil de Lisboa receberem um grupo de “pobres de segunda classe” acompanhados de representantes associativos, eclesiásticos e advogados com nome na praça? Já alguém viu o governador civil de Faro visitar uma das aldeias da Serra do Caldeirão sem estradas de acesso, onde as pessoas vivem em casebres, não passando pela cabeça de ninguém exigir casa nova ou ordenado sem trabalhar?
retirado d'O Jumento
04.07.08por Paulo Ferreira