Dizia este fim de semana José Sócrates que a direita havia ficado economicamente sem ideologia. Constatou um facto. É certo que as mentes mais liberais e simultaneamente com preocupação de manutenção de coerência, devem estar há meses em reflexão.
Hoje foi a vez de Barack Obama vir a terreiro, não armado de grandes teorias, mas desferindo um ataque sem precedentes a essa coisa da ausência de intervenção dos Estados sobre os mercados. Numa só intervenção Obama pediu a demissão de Rick Wagoner patrão da General Motors (ao seu lado na fotografia) e exigiu a esta e à Chrysler profundas reformas e a elaboração de um plano de recuperação a ser analisado pelo Governo. Só depois haverá a decisão se o fluxo de capitais governamentais em direcção a estas empresas se mantém.
As reacções contam-se pelos dedos. Continua a ser um dado adquirido que a Obama tudo é permitido.
A crise económica mundial abalou uma era dominada pelas mesmas famílias e interesses, na qual a ética e a solidariedade foram colocadas em questão e carimbadas como sinal de lirismo naqueles que a combatiam.
Em plena crise dessa era surge na Casa Branca um Homem de origens humildes, fruidor de uma vida normal como nós. Barack Obama não teve berço de ouro e não lhe é conhecida fortuna. É african-american numa terra que apenas há poucas décadas abandonou oficialmente esse preconceito, tendo ficado bem patente que ainda o cultiva. Superou isso, levantou passo a passo a carreira que lhe é conhecida, sempre pela força da competência e do mérito, na política e na sociedade. Quem acharia isto possível? Onde é mal amado, Obama apenas o é por ser novo abalo num status quo que muitos temem ver substituído, por outro onde as oportunidades são iguais para todos.
Barack Obama fez daquele africano franzino Senador do Illinois e agora Presidente dos Estados Unidos da América. Será mais fácil do que fazer e ser algo diferente, agora que tem o poder nas mãos? Não creio. Ele é aquilo que o mundo há muito não tem: um seu cidadão comum, com as rédeas do poder.
Quantos paradigmas mundiais pereceram sem ter por trás a inspiração e a liderança forte de Homens carismáticos, capazes de inspirar as pedras da calçada, movendo-as apenas com a força das suas palavras?
Sei que para ali chegar Obama cedeu a interesses e assumiu compromissos que nem conseguimos imaginar, não sou ingénuo. Aquilo em que confio é que saberá utilizar isso para fazer o melhor para o seu povo, seus semelhantes.
Sou lírico e sonho, quero acreditar que o mundo não tem de ser famílias, interesses e corrupção. More than that, more than ever, I have the god given right to believe in it.
Hoje é o dia do mundo deprimido ser todo obamaníaco enquanto se pode. A dura realidade americana e internacional - os EUA não são omnipotentes mas são a única superpotência, o que os torna decisivos para todos - impor-se-á demolidoramente depois das festas. Até agora tomava-se partido pelos candidatos americanos à Casa Branca pelo que eles diziam sobre o mundo, pouco nos interessando o que propunham para a política interna americana. Desta vez, ambas as coisas têm a ver com todos, atenta a crise globalizada que se vive à escala planetária. Há excessivas expectativas sobre Obama, que se explicam em grande parte pelas consequencias da talvez mais difícil presidencia da história americana que foi a de George W. Bush. O mais popular Presidente de sempre e também o mais odiado será talvez o único que sai da Casa Branca à espera que a História lhe faça justiça. É a sua única esperança e, todavia, não é difícil perceber que todos lhe devemos mais do que aquilo que é politicamente correcto admitir, não obstante os erros, os disparates e as gaffes. Obama vai poder continuar a alimentar as ilusões do povo da esquerda com duas ou três medidas bem gerudas no tempo e a que não deixará de dar o devido relevo simbólico, como é o caso do encerramento, embora a prazo e com muita calma, da prisão de Guantanamo. Mas não hesitará em defender os interesses americanos, como é timbre de todos os Presidentes, mesmo que isso seja contrário aos interesses dos europeus que há muito decidiram empanturrar-se em manteiga e deixar de comprar canhões.
Obama anunciou ontem que pretende criar 4 milhões, sim, leram bem, milhões de empregos. Tal qual Sócrates prometeu na campanha eleitoral criar 150.000. Agora, Obama pretende uma nova abordagem com o Irão no respeito do seu povo. Ora aí está uma espécie de Sócrates romântico e à escala americana, ou seja, em grande. O actual Irão com o líder que tem é mesmo sensível a novas abordagens. Um piedoso, este Obama.
O Presidente eleito norte-americano, Barack Obama, disse hoje que o seu plano para criar, pelo menos, 2,5 milhões de novos empregos inclui o maior investimento em infra-estruturas desde os anos 50 do século passado e um grande esforço para reduzir o consumo de energia do Governo norte-americano.
Os Estados Unidos vão ainda promover a expansão do acesso à Internet de alta velocidade e a modernização dos edifícios escolares por todo o país. Sim nós podemos, como diria Jerónimo de Sousa!
Não foi o melhor discurso de Obama, mas é tão difícil classificá-los! De uma coisa estou certo, durante décadas ouvimos I Have a Dream e The Promised Land de Martin Luther King, durante décadas ouviremos Yes, We Can de Barack Hussein Obama.
Meia dúzia de horas depois sabemos que são palavras de história, daquelas que nunca serão apagadas...
Ele ganhou a todos os níveis. Uma participação histórica, uma votação expressiva, uma boa diferença de votos populares e uma maioria no senado que o poderá ajudar. Fez história!
Barack Hussein Obama é um fantástico orador, tem um discurso inspirador e não se deixa levar pela emoção do momento. À partida, visto deste lado do atlântico, apresenta recursos para merecer o voto popular americano.
No entanto, não deixa de ser relevante as especificidades do momento em que é eleito. O discurso de futuro/esperança é feito à medida de um momento de crise e da dificuldade em prever o futuro próximo.A excessiva expectativa coloca os padrões demasiado altos. Será inevitável a crítica com toque de desilusão. A herança Bush marcará de uma forma brutal grande parte do mandato desta administração. A profundidade das alterações externas e internas (do Iraque até ás nacionalizações) dos últimos 8 anos é assustadora. O desafio é enorme e demorará tempo. E não foi a pensar a pensar no longo prazo que o mundo o escolheu. Barack Hussein Obama parece ter esta percepção. Parece...
Uma ilação eu tirei. As feridas provocadas pela "crise de wallstreet" iniciaram a discussão sobre a importância e influência dos EUA. Uma espécie de principio do fim de um império. Acredito que esta nossa expectativa é a prova que o mundo ocidental tem um líder e uma capital: EUA e Washington. Ou será desespero?
Olhando de relance o mapa dos resultados eleitorais de 2004, prevendo que Obama vai "roubar" a Bush/McCain o Ohio e a Flórida, fica claro que não só vamos ter o primeiro Presidente African-American dos Estados Unidos, como também que irá ultrapassar o patamar psicológico dos 300 grandes eleitores...
Pode ser mania da perseguição minha mas julgo que os americanos hesitarão mais entre um negro motivador de discurso fácil e um herói de guerra experiente com provas dadas, do que entre uma mulher experiente com provas dadas e um republicano.
Este saudosismo sebastiânico norte-americano terá pernas para andar?