O nível de evolução cultural de um país pode facilmente ser demonstrado pela sua pluralidade cultural, pela aceitação e fomentação da diversidade, em tudo – até mesmo no desporto. Nunca fui um desportista nato, nem nunca nutri uma grande paixão por nenhuma modalidade, embora tenha praticado durante alguns anos basquetebol e tenha sido presença constante no pavilhão da Associação Desportiva Sanjoanense, durante umas boas três épocas de Hóquei em Patins.
Voltando ao primeiro ponto, estamos, pois, perante um problema de falta de diversidade desportiva, onde o futebol arrasa em todas as medidas, deixando há muito tempo de significar aquilo de nobre que a palavra desporto representa. Passou a ser apenas mais um mercado dentro do mercado, onde pessoas são negociadas ao ritmo do Dow Jones, onde impera a especulação e os números falam mais alto que o espectáculo.
Posto este cenário, seria de esperar que o público que gosta de desporto tivesse alguma preocupação para com as equipas que resistem à ditadura do futebol, pressionassem as SADs dos grandes clubes a investirem nas modalidades ditas amadoras, obrigassem a comunicação social a publicitar e transmitir mais jogos que não futebol. O problema é que vivemos numa sociedade mercantilizada, que é habitada por adeptos que nasceram e cresceram a ouvir os relatos do Gabriel Alves, sem nunca terem sido tentados a verem alguma coisa no desporto para além do futebol, a pensar que realmente existe um terceiro vértice de um triângulo ofensivo, ou que o Caneira é mesmo parecido com o Veloso.
Basta olharmos para o nosso lado e notamos que a diferença é abismal, só precisamos de colocar os olhos no resto da Europa e compreendemos a ditadura futebolística que se vive no nosso país. Será preciso referir a tradição, o público e a relevância do rugby em Inglaterra, França, Escócia e Irlanda? É necessário falar da força e dos adeptos que representa o basquetebol em Espanha ou na Grécia? E o andebol na Alemanha, Croácia, Dinamarca e Rússia? E a relevância do Criquete e do Pólo em todo o Reino Unido? E o Voleibol na Rússia, Bulgária, Polónia, Espanha, Sérvia e Itália?
Em todos estes desportos colectivos o nosso país já teve momentos de maior e menor importância e relevo a nível europeu. No entanto é preciso realçar o papel de Portugal no panorama mundial do Hóquei em Patins, sendo neste momento o país com mais títulos mundiais. Acontece, todavia, que, embora se estime que existam cerca de 150 clubes inscritos no nosso país, este desporto tem sido muito mal tratado quer pelos adeptos do desporto, quer pela comuniação social e principalmente pelos clubes ditos grandes – excepção seja feita, diga-se, ao Futebol Clube do Porto, que mesmo assim tem sido o que mais investe na modalidade.
Até agora todos os amantes da modalidade têm confiado o futuro da dita ao mercado, a uma lei da oferta e da procura – ao cativarem mais praticantes e adeptos conseguiriam também atrair mais comunicação social. Com isso apareceriam mais patrocínios e, logo, mais fundos para investirem no fomento do Hóquei Patins – este modelo está falido e só ajuda ao fim deste desporto. Se temos os melhores atletas, alguns dos melhores clubes e o melhor palmaré a nível mundial, o Estado tem a obrigação de intervir e ajudar os clubes a ultrapassarem este período dramático, que se arrasta há mais de uma década no Hóquei em Patins.
Nesta óptica seria benéfico que o Estado português obrigasse os canais televisivos a cumprirem quotas para a transmissão de modalidades ditas amadoras, isto se desejarem transmitir jogos de futebol – esta quantificação poderia ser feita facilmente: por cada jogo de futebol que queiram tranismitir terão que cobrir quatro jogos de modalidades amadoras. É também preciso que o Canal 2: mantenha na sua grelha a transmissão das mesmas e se possível, as consiga trazer para o horário nobre, tal como a RTP1 faz com o futebol.
O Estado deve também penalizar, através da tributação fiscal, os clubes que dediquem mais do que 50% do seu orçamento ao futebol, premiando, ao invés, aqueles que apenas investem nas outras modalidades. Seria também interessante se as Autarquias Locais fossem impossibilitadas de apoiarem os clubes locais, se mais de 30% desses mesmos fundos fosse direccionado para o futebol.
Em suma, é urgente que o estado português publicite esta modalidade, apoie financeiramente o seu ressurgimento e possibilite o seu ensino com qualidade nos programas escolares de educação física.
É favor salvar o Hóquei em Patins…





