Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008
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Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles.
Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada,
as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor.
Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me
atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista
sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
 
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era
apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se
reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem
permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem
dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para
Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa
feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra:
sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo
a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam
motivo para festejarmos.
 
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais
diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos
comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando
nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes
africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei:
estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama
familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na
pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de
ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o
Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse
outro lado do mundo.
 
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês,
Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As
questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me
perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e
se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano?
São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
 
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana? 

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George
Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o
seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar
mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa,
se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em
África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné
Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí
fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de
20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando
terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
 
 2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um
candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer
campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões:
seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia
retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não
toleram a democracia.
 
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte
dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que
fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a
descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda
está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos.
Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à
independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de
malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente".
Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá
nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer
política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
 
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é
mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu
próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos
que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as
elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um
"não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como
novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo
representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou
de nenhuma bandeira?).
 
 5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação
aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de
agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para
os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas –
tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é
um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
 
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à
mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo
negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o
perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo
expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa
mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores
africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas
dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.
 
 Inconclusivas conclusões
 
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos
de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos
capazes de construir uma dessas condições à parte.
 
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não
seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que
fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
 
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos -
as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a
alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e
corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para
esta festa.
 
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de
Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto
daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios
dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de
estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o
bem público.
 
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os
noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre
África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África
continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada
de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses
políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns
casos. Outros, a desistência e o cinismo.
 
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é
lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no
nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também
vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com
esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos
em casa alheia.
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14 comentários:
De Rui Ferreira a 17 de Novembro de 2008 às 19:36
Duvido que o texto seja de Mia Couto. Pelo estilo e pelo conteúdo.


De Paulo Ferreira a 18 de Novembro de 2008 às 02:42
Sinceramente não meto as mãos no fogo mas como me foi enviado por dois amigos, um do ISCTE e outro do INE, que usualmente recolhem bons textos e artigos,fruto das suas ocupações profissionais, dei a informação como válida....vou tentar confirmar.
De qualquer forma obrigado pelo alerta.


De Paulo Ferreira a 18 de Novembro de 2008 às 03:06
Parece que é mesmo, não encontro link para o endereço eletrónico do jornal savana mas o texto está por todo o lado na blogosfera....se for um erro, foi cometido por uma grande leva de blogues.


De Luis Paulo Meleiro a 18 de Novembro de 2008 às 15:33
O que nao seria nada de novo.
Recebi um email com este 'artigo', e - claro - a mencao "por Mia Couto", e tal como o Rui Ferreira torci o nariz, pelos mesmos motivos.
Como comeco a estar farto de receber estes emails, nomeadamente os que incluem textos supostamente "assinados" por Miguel Sousa Tavares, Gabriel Garcia Marquez e outros nomes estupidamente usados no sentido de dar 'credibilidade' a seja que ideia/comentario... a primeira coisa que faco e' tentar determinar a fonte. Foi assim que aqui vim parar (*).
90% das vezes trata-se de um "falso positivo". Porque???

(as minhas desculpas pela falta de acentos, ainda nao recebi o meu teclado porugues...)

Folsom, California

(*) seja como for, nao se perdeu tudo, fico com este blogue nos meus favoritos, ja' que gostei do tom.


De Carlos Lourenço a 30 de Dezembro de 2008 às 23:02
O próprio Mia Couto leu o texto na Antena 1 em 21/12/2008 pelas 12h35m . O leitor foi apresentado pelo jornalista da Antena 1 como sendo o Mia Couto, e, a mim, pareceu de facto a voz do Mia Couto. Portanto, a ser fraude, teria de ser muito elaborada...


De Aljocor a 19 de Fevereiro de 2014 às 16:38
Caro RF
Com a modéstia com que foi escrito, podes ter a certeza que pertence a MC.


De Jose Pinto a 18 de Novembro de 2008 às 17:11
Seja por este ou por outro assunto qualquer é dever cívico de cada um antes de re-enviar estes e-mails em cadeia (hábito que infelizmente está a criar raízes) avaliar da veracidade da informação, designadamente quanto às referências de autoria.


De Andrzej Solecki a 7 de Janeiro de 2009 às 02:35
O site do semanário Savana, http://www.savana.co.mz ,
reproduz o texto na sua edição de 18 de novembro de 2008, portanto não vejo mais motivos para desconfiar da autoria do Mia Couto....


De Susana Mesquita a 28 de Julho de 2009 às 18:49
Este discurso consta do livro "E se Obama fosse africano", foi editado já o ano passado em Novembro ou Dezembro. Este livro contém discursos ou palestras de Mia Couto. Para quem gostou sugiro outro discurso: Sapatos Sujos; feito a pensar em Moçambique mas aplica-se a outros "ecossistemas".


De Laura Cavalcente a 20 de Março de 2012 às 22:01
Este texto é sim do Mia Couto, procurem se informar antes de colocar palavras para ora da boca. Foi publicado no livro "E se o Obama fosse africano." Por Mia Couto. Pesquisem da próxima vez!


De Victor Rego a 29 de Dezembro de 2012 às 11:13
Super verdades. Pena é que muitos nao poderao aceder a esta mensagem. O que falta em Africa é mudança de mentalidade - claro para o melhor, partindo do que vemos e ouvimos. Oxalá que tenha havido um aprendizado com a vitoria do Obama.


De Igildo timbane a 24 de Julho de 2013 às 21:31
Everdade este pais precisa de um bom governador k ñ xtá precopado em robar o denheiro do povo precisamos e um como obama em moçambique.


De Jaime Chinguicho Gandar a 4 de Novembro de 2013 às 06:33
Mocambique està mais que tudo isto, sinto dor em q nenhum pais jà passou consequéncias como Mçmbq. Mae da corrupçao,


De Jaime Gandar a 5 de Novembro de 2013 às 21:02
N sei q espirito deus aspirou pr a Africa. este comportament gémeo d milhoes, prq n hà difrnc por tod continente...


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