Quarta-feira, 16 de Abril de 2008
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Caro André,

 

Bem sei que a esquerda anacrónica não tem apenas demasiado protagonismo na América Latina, se bem que, aí, não só tem protagonismo como tem poder. Veja-se o caso de Cuba ou da Venezuela, onde os resultados são lamentavelmente conhecidos.

Na Europa, a esquerda anacrónica também tem relevo. Em Portugal, temos dois partidos que se enquadram neste campo da esquerda, ainda que um, o BE, querendo parecer menos ortodoxo do que o histórico partido comunista português, apresentando-se com laivos mais modernos, tem um estilo tão ou mais ortodoxo que o PCP.

Aqui ao lado, em Espanha, o anacronismo de esquerda perdeu força, com a IU sem qualquer representação parlamentar. Mas em termos de desenvolvimento nacional quem nos dera a nós, portugueses, que o nosso PC tivesse a leitura eurocomunista de Santiago Carrillo! Deveríamos estar bem melhor.

Em França, o outrora mais determinante partido de esquerda, o PCF, está pelas ruas da amargura, como a esquerda troskista.

Em Itália, os grupelhos de esquerda não acederam ao Parlamento. E, como já sucedera em França, onde a Frente Nacional procurara e recebera muito do seu apoio nas bases do PCF, e viu-se onde Le Pen chegou em 2002, no norte de Itália, a Liga do Norte, que duplicou a votação nestas eleições, cresceu pelo apoio colhido no eleitorado que era afecto à esquerda. 

Todavia, onde se joga a preponderância da esquerda anacrónica na Europa é na Alemanha. O Die Linke, partido constituído pelos ex-militantes ressabiados do SPD, com Lafontaine no comando, e os ressabiados comunistas, que um dia foram poder na defunta RDA,estão a subir. No leste estão consolidados como força preponderante e no oeste estão a conquistar mais apoios. E, como seria de esperar, sendo quase inevitável, mais sobem os anacrónicos quanto mais o SPD se preocupa em querer afirmar-se mais à esquerda.

É bem provável que nas legislativas germânicas do próximo ano este partido cause um pequeno abalo, do qual o SPD é o principal prejudicado. E por culpa própria. Pois a esquerda anacrónica tende a subir onde a esquerda democrática tende a hesitar.  

As propostas demagógicas e penalizadoras dos contribuintes (base comum à esquerda anacónica) do Die Linke, podem cair bem, e provavelmente vão ser apreciadas por certas fatias do eleitorado desiludido com o SPD.

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2 comentários:
De Miguel Lopes a 17 de Abril de 2008 às 20:03
A adjectivação de anacronismo a quem defende que devem ser públicos os monopólios naturais que carregam enormes externalidades para a restante economia, é de uma objectividade que prima pela ausência.

Concedo que existe essa tal esquerda anacrónica, só que não a vejo como sendo aquela que defende que estes recursos escassos e vitais sejam públicos porque eles fazem parte de uma estratégica que dá uma brutal alavancagem ao Estado. É ver a quantidade de países da OPEP onde as empresas petrolíferas são detidas pelo Estado.

Dá-me a sensação que uma certa direita só gosta que o Estado nacionalize o risco sobre lucros privados e estranha a nacionalização dos lucros que alargam a base dos beneficiados.
São poucos os que aceitam que também existe uma direita anacrónica que não aprendeu com a história, e que no marasmo de uma sanha privatizadora , aceita sem questionar as fantasias do laissez-faire .

Termino citando a nossa Constituição:

Pertencem ao domínio público (...) Os jazigos minerais, as nascentes de águas mineromedicinais, as cavidades naturais subterrâneas existentes no subsolo


De Jose Ferreira a 19 de Abril de 2008 às 17:05
Infelizmente a esquerda é o que é e não o que os outros gostariam que fosse. A única maneira de acabar com ele é atirá-la ao mar!!! O Eurocomunismo é um prato que paguei e não comi como faço sempre que sou mal servido.
Entretanto, como militante do PCP, só me lembro daquele intelectual brilhante que o Brasil trouxe ao mundo, chamado Paulo Freire, que afirmava "porque amo a humanidade brigo para que a justiça social se implante antes da caridade." Até hoje a justiça social não conheceu outro instrumento para se implantar que os impostos.
Ah! e fico feliz a medida que a realidade nos dá razão. Felizmente a realidade é teimosa.


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