Quarta-feira, 16 de Abril de 2008
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Caro Diogo,

   

Já li, em especial na blogosfera, muitas críticas à participação de Carlos Reis e à sua atitude menos digna no “Prós e Contras”, como os oponentes do Acordo Ortográfico (AO) fazem questão de sublinhar.

Se as pessoas prendessem por breves momentos a atenção na área de especialidade de Carlos Reis, estudos queirosianos, perceber-se-ia melhor a forma de estar do actual Reitor da Universidade Aberta, que faz jus ao estilo e conteúdo das leituras que Eça apresentou.

Mas, não é sobre o comportamento dos intervenientes, que na globalidade ficaram aquém do que se esperava, e estamos em sintonia neste ponto, desde os fracos argumentos apresentados por Lídia Jorge à agitação quase constante de Maria Alzira Seixo, sem esquecer a visão apocalíptica apresentada por Graça Moura, que nos deve centrar a atenção, mas sim a importância do AO para a língua portuguesa no século XXI.

Dos vários pontos que enumeras, deve referir-se que o AO não beneficia, como indicas no terceiro ponto, só Portugal e o Brasil, mas todos os Estados lusófonos. 

Afinal, ficamos todos com a mesma escrita e esta circunstância, na competitividade global, em que as línguas participam e contam, passa a ser um trunfo para o português, algo que agora não é. Como alguém disse no referido programa da RTP, em França há quem pretenda aprender o “brasileiro”. E, de facto, é incontornável, o português tem hoje uma presença significativa no mundo por causa do Brasil. A dimensão demográfica conta, e de que maneira.

Mas, o português poderá ter uma presença ainda mais preponderante, quando dentro de alguns anos, Angola e Moçambique, especialmente Angola, contarem com uma sociedade estável e próspera. Sinais que os dois países começam a dar no presente. E, esta situação de estabilidade terá a sua natural repercussão em termos demográficos, uma vez que finalizada a guerra, havendo mais condições de saúde, com as elevadas taxas de natalidade que se registam em África, às quais Angola como Moçambique não são excepção, o número de nativo falantes pode aumentar exponencialmente. Isto, pelo lado endógeno.

A língua é propriedade de quem a usa e, assim como o AO tem impacto nos nacionais dos 8 países lusófonos, tem também em todos os seus milhões de emigrantes espalhados pelo mundo. Passaremos todos a escrever da mesma maneira.

Do lado exógeno, isto é, de quem quer aprender o português, e são muitos, nomeadamente os chineses, e como é importante não desperdiçar esta oportunidade!, o AO é ainda melhor para qualquer pessoa que queira aprender português, uma vez que não terá de aprender duas grafias, mas sim a grafia do espaço lusófono.

Num momento em que a prosperidade começa a florir nos países africanos (ressalvo um ponto que tende a ser apresentado e é um erro tomar os cinco países africanos lusófonos todos por igual, importa respeitar a individualidade de cada um, que por si só é riquíssima na sua diversidade interna; dada a sua circunstância geográfica, só São Tomé e Príncipe é o mais homogéneo), que o Brasil se afirma no mundo como potência emergente, que Timor terá tão mais a ganhar em termos de identidade e reconhecimento no quadro austral em que se encontra quanto mais o português for tido como língua preponderante, e Portugal pode desempenhar um papel determinante na União Europeia, em termos de ponte para o hemisfério sul; desperdiçar uma oportunidade, em que todos beneficiam, só por uns quantos quererem manter o seu reduto escrito, é um total disparate. Esta posição acaba por recordar um dos episódios de “Os Lusíadas”, quando célebre vetusto do Restelo não queria que o país passasse as margens do norte de África em termos de conquista. Mas, o português é tão língua de Camões como é de Amado, de Mia Couto como de Águalusa, de Pepetela como de Alda Espírito Santo, entre tantos outros.

O momento é de desafiar o longínquo e agora podemos dar esse passo, de valorização e dignificação da nossa língua no mundo, ou ficar agarrados ao nosso penacho, como se fosse algo só nosso e que mais ninguém pode usar.

Este paternalismo só nos conduz ao isolamento e enfraquecimento do português como língua mundial, que é.

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6 comentários:
De João Santos a 16 de Abril de 2008 às 17:16
O que é mais esquizofrénico nesta "cólica" ortográfica é que os seus paladinos (um dos quais CMC, como aqui fica comprovado) são maioritariamente aqueles que, em oposição, sempre foram contra o "Império", a expansão portuguesa para as "Colónias" e a sua fixação e, imagine-se, ao tornar a língua portuguesa no idioma oficial desses países. Vejam se isto não é a contradição das contradições...

Entendam-se! Fomos corsários colonialistas mas já não faz mal utilizar a hegemonia nacional a que esses povos escravizados e diminuídos foram sujeitos nas suas idiossincrasias culturais, para nosso benefício??? Mas andam a brincar connosco?

Vão dizer aos americanos para "britanizarem" a sua ortografia. Ou mais difícil, vão dizer aos britânicos para se "americanizarem"... E ao lado desse poderíamos colocar muitos outros exemplos. O que vale é que continuamos a querer tornar-nos mais pequenos do que somos. Pelo caminho porque é que não sugerimos ao Lula tornarmo-nos brasileiros para, assim, beneficiarmos da sua posição visível no mundo?

Uma pergunta, para alguém que generosamente me possa responder: desde quando é que a lusofonia esteve em causa por não ter havido AO durante mais de 500 anos? por não se escrever fato em vez de facto, atual em vez de actual?


De baby_boy_swim a 16 de Abril de 2008 às 18:27
Antes de mais, sou contra o AO.

E concordo com o comentário anterior. Falta referir é que também há cedências da parte do Brasil, por exemplo eles deixam de usar o trema!

Mas isto não é justificativo. No post falha por num ponto. A pessoa que queira aprender português terá que aprender a escrever em português de Portugal e em Portugal do Brasil, porque a nível gramatical é diferente e só há um Acordo na grafia.
Por exemplo:

"AMO-TE" - português de Portugal
"TE AMO" - português do Brasil

O Acordo é mau para Portugal, é uma cedência desnecessária. Estou a estudar na Irlanda e cá tentam colocar o irlandês como 1.ª língua e nas escolas todas a maioria das disciplinas é dada em irlandês... Só em Portugal é que se vai buscar o brasileiro!

Já agora o português vai puder usar "time" para equipa... Sabia? E isso irá confundir os portugueses por completo...

Muitos sem saberem muito falam no aspecto do "facto" e "fato", só que os especialistas disseram que esse facto não entrava no Acordo e fica correcto escrever das duas maneiras...

Não estou correto? (escrevendo pós AO)



De Zé da Burra o Alentejano a 17 de Abril de 2008 às 12:02
A Língua portuguesa está a passar por um período de implantação, quer nos países Africanos de Língua Portuguesa, quer em Timor Leste. Na Guiné-Bissau esteve até para ser adoptado o Francês como língua oficial e em Timor-Leste o Inglês. Daí será fácil concluir que a língua portuguesa nas nossas ex-colónias não ficou muito bem cimentada. Esses países já não são colónias portuguesas, são livres e tanto poderão seguir o português falado em Portugal, por 10 milhões de habitantes, como o português falado no Brasil, por 220 milhões.

A teoria de Darwin é mesmo verdadeira e Portugal, se teimar em não se aproximar da versão de português do Brasil sujeita-se a ficar só e, mesmo assim, não vai conseguir manter a pureza da língua porque ela evolui todos os dias, independentemente da questão que agora se nos põe: todos os dias há termos que caem em desuso e outros novos que são adoptados pela nossa língua, em especial termos ingleses que são adoptados sem quaisquer modificações.

Se não houver aproximações sucessivas ambas as versões do português continuarão a divergir e daqui a algumas gerações serão línguas completamente distintas. Será então a altura de Portugal confirmar que saiu a perder porque ficou agarrado a um tabu que não conseguiu ultrapassar.

O Brasil tem um impacto muito maior no mundo do que Portugal, dada a sua dimensão, população e poderio económico que em breve irá ter. O nosso português tem hoje algum peso muito em função dos novos países africanos PALOPs ) e de Timor Leste, mas ninguém garante que esses países não venham um dia a aproximar o seu português da versão brasileira e há até já alguns sinais nesse sentido. As altas tiragens das publicações editadas no Brasil produzirão livros mais baratos e se houver maior harmonização as editoras portuguesas (ou dos PALOPs ) poderão vender mais no Brasil. Não poderemos esquecer-nos de que são países independentes e poderão decidir como muito bem entenderem.

Se Portugal permanecer imutável um dia poderá ficar só: a língua portuguesa de Portugal será então considerada uma respeitável língua antiga (o Grego é ainda mais), da qual derivou uma outra falada e escrita por centenas de milhões de habitantes neste planeta. O nosso orgulho ficar-se-á por aí e pronto!

Ambas as versões de português têm uma raiz comum e divergem há apenas cerca de 250 anos. Outros tantos anos a divergir e já não nos entenderemos: terão que ser consideradas línguas diferentes.

O acordo ortográfico é uma decisão apenas política que os técnicos terão depois que assimilar e seguir. Portugal nada ganhará de imediato mas tem muito a perder no futuro se rejeitar o acordo que o Brasil está agora disposto a aceitar. Este acordo não chega e no futuro mais acordos terão que fazer-se.

Zé da Burra o Alentejano



De de puta madre a 18 de Abril de 2008 às 02:02
É!
Que pena esta coisa não se poder FALAR!
LOGO:
Nada de medos dos FRANCESES que querem aprender Brasileiro!!
A RECEITA ( Tem Funcionado com todos ...conheço muitos!) Dizes em Inglês que não compreendes que Língua estrangeira que só falas SUECO ( Entretanto aprendes SUECO! Com livros brasileiros ... aí está o ma do PT ... mas vale)

E entretanto DIVERTE-TE com o HORROR dos franceses agoniados por serem franceses e andarem a querer aprender brasileiro! Garanto-te que o complexo de CHACOTA lhes passa logo!


ODEIO ESTE ESTADO DE ESPÍRITO PORTUGUÊS QUE SE DEIXA INTIMIDAR POR UM ESTRANGEIRO!

O TEU texto! E TU talvez tb falham por isso! Essa coisa ... ... temos que ser um pouquinho como o FIGO a dar a cabeçada certeira na cabeça do HOLANDÊS ! VALE!


De Raul a 6 de Junho de 2008 às 14:27

Atenção Portugueses!!!
Diz um ditado popular:" Se não pode com eles, junte-se a eles"...
Então Portugueses ou vocês unam-se ao Brasil, ou seu idioma está com os dias contados e ficará na história e nas lembranças no mundo. O maior engole o menor e vocês se forem inteligentes e espertos deviam entender que não deve-se dar "murro em ponta de faca" e creio que seu governo já enxergou isto, mas muita gente não... Já li muitos foruns e opiniões diversas, confesso que a grande maioria dos comentários são contra...
Deixem de ser arrogantes e puristas... sejam humildes e aceitem a realidade. A criatura dominou o criador...
Comparem Brasil e Portugal e vejam que em todos sentidos Portugal está a anos luz atrás do Brasil...
Abram os olhos e vejam a realidade...


De clara a 2 de Março de 2013 às 13:37
não entendi nada do que você disse por que a minha pergunta foi qual a importância do novo acordo ortográfico e você não disse nada disso para mim


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