É verdade, consensual parece-me, que por diversas razões, desde o 25 de Abril ao 25 de Novembro, do processo de descolonização à integração dos chamados "retornados", por utilidade politica e ferramenta ideológica, sempre se "politizaram excessivamente" as questões envolvendo os ex-militares portugueses que serviram durante a Guerra do Ultramar, ou Guerra Colonial, ou Guerra de Libertação, chamem-lhe o que quiserem, foi uma Guerra.
13 anos de Guerra causaram muitas mortes e imensos feridos, brancos e negros, nascidos e criados na dita Metrópole ou no alegado Império, seres humanos com diferentes motivações, ideais ou príncipios.
Ficaram marcas profundas, essas marcas e essas vítimas são muito mais importantes que o nome que se queira dar ao conflito armado ocorrido.
As gerações que viveram, suportaram e combateram nessa Guerra, por motivos vários, políticos para uns, dor, medo, ódio ou frustração para outros, talvez mesmo por vergonha para alguns, preferiram esquecer, preferiram ignorar, olhando para o lado enquanto se escondiam traumas por debaixo dum tapete politicamente correcto, alimentando tabus dolorosos.
Não tivemos direito a heróis nem a histórias de coragem, apenas a algumas vitimas politicamente correctas, socialmente aceites e reconhecidas, salientado apenas os episódios mais tristes, justamente merecedores de critica, da dita Guerra.
Militares e civis envolvidos nas várias áreas do conflito foram praticamente votados ao abandono, perdidos num estranho nevoeiro que tudo cobriu excepto alguns complexos de culpa mal digeridos e um sentimento de vazio imenso, um luto estranho e demasiado silencioso....propício a pesadelos.
É como se os inúmeros portugueses afectados fossem culpados de alguma coisa, como se quem morreu cumprisse apenas um triste destino, uma fatalidade.
Como se os que voltaram com marcas irreversíveis pudessem ser "acusados" da desfaçatez de ter sobrevivido, como se devessem um pedido de desculpas por terem feito o que lhe foi ordenado, com maior ou menor hesitação , com maior ou menor convicção, com maior ou menor bravura.
É quase como se os muitos civis que viram as suas vidas mudar tão radicalmente não passassem de privilegiados que receberam o justo castigo por um qualquer pecado mortal supostamente cometido.
Todos maus dum lado, todos bons do outro.
Como se o mundo fosse exclusivamente a preto e branco, mas não é!
Como se servir uma causa nobre fosse apenas lutar contra um regime injusto, fosse exclusivamente sair do País para evitar a incorporação e o serviço militar, fosse unicamente trabalhar no sentido de sabotar e desmoralizar todos os esforços militares no terreno.
Reconheço a coragem de lutar contra um regime totalitário em que se não acredita, admiro a firmeza de carácter e a tenacidade necessárias para suportar perseguições e lutar pela liberdade dum País amordaçado, estou muito grato pelo resultado de todos esses esforços abnegados, por vezes pago com o próprio sacrifício .
A Democracia que, melhor ou pior, tivemos nos últimos 34 anos, a eles se deve.
Exigo porém, e tenho esse direito, que se reconheça o esforço de quem cumpriu ordens honradamente, de quem, sem convicções politicas embarcou para um pesadelo, de quem acreditava que o dever para com a Pátria estava sempre em primeiro lugar, de quem não teve qualquer alternativa senão lutar.
Porque a Direita não tem "o exclusivo" do serviço à Pátria, porque nem só o Manuel Alegre pode rimar Pátria com Esquerda, porque os "comunas não comem criancinhas" e os portugueses que serviram nos vários teatros de operações militares não eram todos "monstros fascistas e facínoras", porque os cidadãos portugueses que residiam fora do Continente não eram todos "um bando de exploradores e esclavagistas" e muitos até lá residiam porque para lá foram "empurrados", quer pelo Estado, quer pela carreira profissional, quer pelo desejo de melhores condições de vida do que na terra natal, empobrecida e sem oportunidades.
É uma elementar questão de justiça, para com os mortos e para com os vivos.
Tabus em Democracia são contraproducentes, negam a própria definição de liberdade.
Hoje não temos História, apenas complexos de culpa, não temos heróis, apenas saudades dum tempo longínquo em que fomos "qualquer coisa", não temos sequer respeito por nós mesmos, enquanto Nação, ao recusar olhar ao espelho e ver claramente, sem fobias nem descriminações, com virtudes e defeitos, coisas boas e menos boas, admirando os feitos e reconhecendo as derrotas ou as injustiças.
Nenhuma das minhas frases neste texto começa por J'accuse ", mas sempre que oiço a retórica arrogante e prepotente de alguma Direita sobre os Antigos Combatentes, sempre que observo a postura e oiço o discurso ressentido e rancoroso de alguma esquerda sobre tudo o que tem a ver com a nossa História, nomeadamente a tal Guerra de 13 anos, não consigo evitar lembrar-me dum nome muito especial, para mim, inscrito numa das ultimas lápides descerradas no ano 2000, no Monumento aos Mortos da Guerra do Ultramar, pelo Presidente da República Dr. Jorge Sampaio.
Para explicar o sentimento que me invade, termino com as palavras de Émile Zola :
« Mon devoir est de parler , je ne veux pas être complice . Mes nuits seraient hantées par le spectre de l'innocent qui expie là-bas , dans la plus affreuse des tortures, un crime qu'il n'a pas commis . »







