Domingo, 1 de Julho de 2012

Já sentia falta de um ilustre académico português a mandar bitaites sobre Portugal do outro lado do Atlântico. Uns vieram recambiados e hoje são "ministros sem pasta" ou "pastas" a fingirem que são ministros. Outros continuam por lá.

Mas, seja por não terem responsabilidades, seja por interferências bizarras, dá a ideia que estas estrelas-cadentes nunca estão sintonizadas com a realidade.


Ontem, o Dinheiro Vivo deu, justamente, a capa a Vitor Gaspar e ao resultado da sua competência colossal. Mas o enviado especial da Columbia prefere zurzir no lider da oposição. Sem nenhuma razão, como passarei seguidamente a demonstrar.

 

Ricardo Reis deve ter visto uns breves segundo da RTP Internacional e numa postura (nada) muito pouco rigorosa faz de comentadeiro sem sequer ter lido os argumentos (ou escutado na integra). Se calhar recebeu apenas um sms!

Vamos ser sérios e rigorosos, aquilo que o PS e António José Seguro defenderam na quarta feira no Parlamento é claro, transparente e está escrito:


"A estabilização financeira e uma resposta urgente e eficaz para a crise das dívidas soberanas na zona do Euro passa, nomeadamente, pelo reforço da capacidade de intervenção do Banco Central Europeu, tendo em conta a sua ação recente e as novas exigências da União Económica e Monetária e de financiamento dos Estados-membros e da economia europeia. O BCE deve continuar a trabalhar para tornar mais equitativos os custos de financiamento de empresas e particulares independentemente da sua localização geográfica. Além disso, ao BCE deve ser atribuído um papel central na supervisão de instituições bancárias relevantes em todos os Estados-membros. Dada a sua urgência, a centralização da responsabilidade pela condução da supervisão de um conjunto de instituições bancárias (que deverá abranger mais de metade dos ativos bancários europeus e mais de metade dos ativos bancários de cada Estado-membro) deve ocorrer o mais brevemente possível."
"Definir mecanismos europeus de garantia e de intervenção na gestão da dívida soberana nacional, seja através do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) ou do Mecanismo Europeu de Estabilização (MEE), seja com a criação de uma agência europeia de gestão de dívida, seja através de novos mecanismos, como os fundos de resgate de dívida, que permitam a mutualização condicionada e parcial de dívida, sem quebra das exigências de rigor na respetiva emissão."


Alguém explica onde é que se defendeu que o BCE financie directamente os Estados e o faça a 1%?

Não se consegue...é um exercício impossivel! Pelo menos deste lado do Atlântico!
Não foi dito, nem foi defendido,nada disso nem remotamente parecido pelo líder do PS. Nem aqui nem em parte alguma do planeta Terra, apenas, talvez, no cometa Reis!


O que foi dito no debate parlamentar de quarta-feira é que o custo de financiamento da dívida soberana era uma questão essencial. E, como nem todos os portugueses são Professores em Columbia, nem sabem o que é uma yield, um CDS ou operações de open-market, o que António José Seguro fez, e muito bem, foi ilustrar a questão.

A verdade é que o Orçamento Rectificativo diz que os encargos da dívida este ano devem ser de 7,33 mil milhões de euros (já agora, não equivale à despesa com a Saúde como o Primeiro Ministro disse no  debate, mas sim à despesa com Educação) e que se, por mera hipótese, as taxas de juros fossem iguais aquelas que o BCP ou o BPI beneficiam (por opção política, diga-se), então a despesa deste ano deveria rondar os 2 mil milhões, ou seja, uma diferença de 5.000 milhoes de euros.

Repare-se que António José Seguro nem sequer disse que esta hipótese era credível mas exemplificou que se existissem encargos de menos 2.000 milhões de euros, isso equivalia aos cortes dos subsídios de férias e de natal dos funcionários públicos e dos pensionistas e à suposta receita adicional do IVA à taxa máxima na restauração.

Será que Ricardo Reis, "tããããoooo" rigoroso, não quer explicar como é que as taxas de juro do BCE para o BCP e para o Deutch Bank são iguais?

Será pelo racional de risco?

O pior cego é o que não quer ver. Ou o que tem uma teoria nos manuais onde diz que os bancos devem ser apoiados e os Estados não, que os cidadãos contribuintes devem sacrificar-se, mesmo para salvar os bancos, mas os banqueiros não.

A teoria até podia ser boa (por acaso também não é, mas não vem agora ao caso!). A sua prática é que é totalmente desastrosa e absolutamente incompreensível para os cidadãos...contribuintes....eleitores!

De Ricardo Reis a 1 de Julho de 2012 às 14:44

Caro Paulo Ferreira,

A base para o comentário na minha coluna foram os artigos na imprensa como:
-- http://www.jn.pt/PaginaInicial/Politica/Interior.aspx?content_id=2634301&page=-1
-- http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/seguro-quer-emprestimos-para-os-estados-iguais-aos-dos-bancos-1552287

A citação de António José Seguro, entre aspas neste artigo, foi:
"A pergunta que todos os portugueses fazem é por que razão o Estado Português não se pode financiar também a um por cento junto do BCE. A conta é simples: Segundo os dados do seu Governo, estamos a falar num serviço de dívida de 7,3 mil milhões de euros e se os juros forem pagos a um por cento estamos a falar de dois mil milhões de euros. Ou seja, estamos a falar numa poupança de cinco mil milhões de euros"

É esta citação que o meu artigo comenta. Aqui está a resposta à sua pergunta: "Alguém explica onde é que se defendeu que o BCE financie directamente os Estados e o faça a 1%?" Se a citação do JN for uma invenção do jornalista, que vive no cometa Reis, obviamente que retiro o meu comentário e peço desculpa aos meus leitores pelo sucedido.

Por fim, note que eu não quis "zurzir no líder da oposição". Se ler com atenção o segundo parágrafo da minha coluna, vê que eu elogio Seguro por estar certo na mensagem e no essencial. Aliás, penso que sou o *único* na imprensa desta semana que defende Seguro, quando todas as outras colunas que li sobre o assunto ridicularizam aquilo que ele disse. Talvez seja cego, esteja na Twilight Zone, e não esteja sintonizado com a realidade, como você diz, mas acho que a posição de António José Seguro deve ser levada a sério.

Zurzo sim nos seus assessores de economia, que o fazem falhar nos detalhes técnicos, e comprometer desnecessariamente a credibilidade da sua mensagem.

Ricardo Reis



De Paulo Ferreira a 3 de Julho de 2012 às 12:26
Ricardo, agradeço a resposta, permita-lhe que lhe enquadre um pouco melhor o meu ponto de vista pessoal (sem fazer de advogado da "economia" PS, que, de qualquer forma não me parece estar assim tão equivocada).
Uma serie de países tinham problemas estruturais que começaram a ser incomportáveis com a pressão sobre as taxas de juros individuais. Talvez pelos desequilíbrios, porventura pelo efeito psicológico e com toda a certeza pelas baixas perspetivas de crescimento, a divida soberana entrou numa espiral que fez soar todos os alarmes, em Portugal sim mas também na Irlanda em Espanha, em Itália, em Chipre, na Eslovénia....elementar.
A grande questão política é como se detém esta dinâmica. Em termos de cidadania o importante é q todos percebam do que falamos e do que está em jogo. Para que depois os iluminados não fiquem surpreendidos quando os cidadãos votam como na Grécia.
E, queiram ou não queiram os académicos, há que explicar às pessoas porque nunca falta dinheiro para os bancos mas os países e os cidadãos sejam deixados numa angústia puritana se expiação sem proveito económica para ninguém.
O Ricardo diz uma coisa óbvia que pode ser, simultaneamente, uma "hipocrisia contraditória". Os bancos têm crédito do BCE a 1% para poderem emprestar aos estados que o BCE não pode financiar. Porque não discutir a serio as alternativas que estão em cima da mesa (euro bills, fundo redenção, licença bancaria, crédito MEE, eurobonds com teto...)?
Dizer que o que o que o BCE faz é o correto e pode contribuir para a sustentabilidade das políticas públicas è algo que tem um prazo de validade muito curto, parece-me.

Um abraço


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