Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009
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Neste postal, Helena Matos ensaia com bastante sucesso o que já aqui nomeie como 'apelo à cobardia'. Estende as consequências da igualdade no acesso ao casamento muito para lá do que impera no debate público e depois espera que o conservadorismo se revele, como aconteceu aqui e aqui. Armadilhados nos seus próprios argumentos, procuram racionalizar o preconceito afirmando que a homossexualidade não é volitiva, ao contrário da poligamia ou que esta se reduz a um bando de "playboys ou gandulos promíscuos".

Não vou retirar conclusões da primeira afirmação porque ela nem sequer é verdadeira, vou evitar reduzir a poligamia à poliginia (pois por definição engloba também a poliandria, o poliamor e o group marriage) e evitar também catalogar a normalização destes comportamentos como exclusiva de determinados grupos religiosos.

A família monogâmica e patriarcal foi apenas uma imposição cultural na nossa história recente. Para Engels*, a monogamia foi a resposta à necessidade de preservar e garantir a herança paternal, com o fim da propriedade comum e o despertar do sentimento de posse. A monogamia veio substituir a poligamia e a descendência matrilinear, garantindo o domínio do homem sobre a mulher. Assim, não só sabemos que a poligamia existe, como precedeu o nosso modelo familiar.

Quando se afirma que a poligamia é uma escolha, ao contrário da homossexualidade, está-se a dizer que o impulso pela variedade sexual é diferente do impulso pelo outro do mesmo sexo, o que é um absurdo. A existência de qualquer um deles não depende de nós. E se julgam que isso não existe é porque não estão a equacionar o claustro de uma sociedade onde, para cumprir a norma, fazemos um enorme esforço para sermos infelizes. Tal como o esforço de muitos homossexuais que vivem décadas em relações heterossexuais. Nem a homossexualidade, nem a poligamia são opcionais. É exactamente o contrário. A família patriarcal, heterossexual e monogâmica é que é imposta pelo Estado, tal como a família poligâmica é imposta nas comunidades mórmon.

Existem animais monogâmicos: a maioria das aves; alguns roedores como o castor; a lontra; a baleia. Mas a esmagadora maioria dos mamíferos é poligâmica e nós não só partilhamos as suas características como vemos o desejo sexual por múltiplos parceiros como algo natural. Numa sociedade livre, cada vez mais se pratica a poligamia sexual dentro da monogamia social, o que nos dá a resposta à questão.

 

* 'A origem da família, da propriedade e do Estado' de Friedrich Engels.

3 comentários:
De Amanda a 14 de Setembro de 2009 às 12:40
Muito interessante! Concordo plenamente, entretanto...como conseguir se libertar da longa história de imposição da idéia monogâmica? Posso afirmar que não é fácil, se alguém já conseguiu, compartilhe como o fez, por favor! Pelo bem da felicidade! XD


De Saúl Pereira a 5 de Outubro de 2009 às 22:52
Apesar de concordar com algumas premissas do teu post, acho que devias procurar fontes para além do Livro do Engels para fazer esse tipo de afirmações acerca do carácter da família primitiva.


De Anónimo a 10 de Novembro de 2014 às 04:51
Para mim casamento deve ser entre um homem e uma mulher.


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